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Infiltração

Ela goteja pelos poros de cal e cimento, principalmente nas noites de sono alto ou nos dias de casa vazia. Só enxergamos a poça no banheiro, o curto na fiação, as manchas na parede e teto. Pouco a pouco, ela toma, úmida, a parede que não construímos. Às vezes, desaparece. São dias de alegria e de fingimento — nada está acontecendo. Continuo passando o café e levando a chave — não está  acontecendo nada. E é daí que ela volta aos borbotões, com cigarro e ausência, empapando o travesseiro e seu ombro até o último minuto. Nossa infiltração é salgada e sagrada, comprometendo a segurança e todos os pensamentos. Porque alguma coisa está acontecendo, gotejante como um tsunami. Seguro as barras do portão com as duas mãos, volto sozinha para o apartamento e espio, apreensiva, as marcas de umidade no teto.