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Infiltração

Ela goteja pelos poros de cal e cimento, principalmente nas noites de sono alto ou nos dias de casa vazia. Só enxergamos a poça no banheiro, o curto na fiação, as manchas na parede e teto. Pouco a pouco, ela toma, úmida, a parede que não construímos. Às vezes, desaparece. São dias de alegria e de fingimento — nada está acontecendo. Continuo passando o café e levando a chave — não está  acontecendo nada. E é daí que ela volta aos borbotões, com cigarro e ausência, empapando o travesseiro e seu ombro até o último minuto. Nossa infiltração é salgada e sagrada, comprometendo a segurança e todos os pensamentos. Porque alguma coisa está acontecendo, gotejante como um tsunami. Seguro as barras do portão com as duas mãos, volto sozinha para o apartamento e espio, apreensiva, as marcas de umidade no teto. 

If you think this is over
Then you are wrong
Radiohead, Separator
The King of Limbs

The King of Limbs

Aí vinham a cobiça que devora, a coléra que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem como um chocalho, até destruí-lo como um farrapo
Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas
Porque quando a gente bebe fica assim


Só que com menos jazz & mais drama

Porque quando a gente bebe fica assim

Só que com menos jazz & mais drama

Plus je fais l’amour, plus j’ai envie de faire la révolution. Plus je fais la révolution, plus j’ai envie de faire l’amour
maio de 68
Ela era uma dessas moças, aos sábados, com uma bolsa pendurada no ombro, sobem ou descem a rua Augusta. Aos sábados quase sempre à tarde, pois pelos óculos muito escuros e o rosto um tanto amassado que a ausência total de maquiagem nem pensou em disfarçar, quem olhar para uma delas mais detidamente, e alguns até o fazem, pedindo telefone ou dizendo gracinhas sem graça, às vezes grossas, porque elas caminham devagar, olhando as coisas, não as pessoas, mas quem olhar com atenção perceberá que dormiu mal ou demais, bebeu na noite anterior, acabou de chorar ou qualquer coisa assim, sem muita importância.
Sob o céu de Saigon, Caio Fernando Abreu
Era sempre inútil ter sido feliz ou infeliz. E mesmo ter amado. Nenhuma felicidade ou infelicidade tinha sido tão forte que tivesse transformado os elementos de sua matéria, dando-lhe um caminho único, como deve ser o verdadeiro caminho. Continuo sempre me inaugurando, abrindo e fechando círculos de vida, jogando-os de lado, murchos, cheios de passado. Por que tão independentes, por que não se fundem num só bloco, servindo-me de lastro? É que eram demasiado integrais. Momentos tão intensos, vermelhos, condensados neles mesmos que não precisavam de passado nem de futuro para existir.
Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector
He was only twenty-five. He was young enough to miss his youth just as it was slipping away. The worst kind of loss—the one that is happening as you feel it.
Emma Forrest (via suzywire) (via youarebonbon) (via finallyseeing)
Elio Gaspari entrevista Madonna. VEJA, 25 de novembro de 1992.

Elio Gaspari entrevista Madonna. VEJA, 25 de novembro de 1992.

retirado da primeira edição de 1991 da VEJA. O mundo já foi um lugar bem estranho

O tempo continuará ruim, diz ele. Haverá mais calamidades, mais morte, mais desespero. Não há a menor indicação de mudança em parte alguma. O câncer do tempo está nos comendo. Nossos heróis mataram-se ou estão se matando. O herói, então, não é o Tempo, mas a ausência de Tempo. Precisamos acertar o passo, em ritmo acelerado, em direção à prisão da morte. O tempo não vai mudar
Trópico de Câncer, Henry Miller
(via malaguetices)

(via malaguetices)